Não gosto de Gaitán e assumo-o sem qualquer problema. Desde a época passada que acho que a sua postura em noventa por cento dos jogos é uma falta de respeito para com os colegas que se esforçam dentro do campo e também em relação a quem contribui com dinheiro de bilhetes e quotas para lhe pagar a casa, o carro, a comida e o raio que o parta. Há muito tempo que não me lembro de ver no Benfica um jogador com tanta técnica individual e, simultaneamente, com tamanha atitude "estou-me a cagar para vocês todos, dêem-me mas é a merda da bola" (o último talvez fosse o Roger, se bem que acho que o Roger ainda conseguia ser tecnicamente melhor do que o Gaitán). Marca golos fantásticos? Marca, sim senhor. Faz assistências brilhantes? Também. E tudo isso fica na retina, é óbvio. Mas é bom não esquecer a quantidade de golos que o Benfica sofreu na época passada e nesta porque o Gaitán perdeu uma bola ao tentar fintar quatro gajos, porque o Gaitán não esticou a perninha para travar um contra-ataque, porque não lhe apeteceu vir ajudar o lateral que acabou a levar com dois adversários em cima, etc, etc, etc. É claro que todas estas não-acções não ficam na retina (o olho humano não está preparado para gravar não-acções) e é fácil atribuir as culpas de um desses lances ao Maxi, ao Emerson, ao Luisão, ao Garay, ao Jardel, ao Javi, ao Matic ou a outro qualquer. É demasiado fácil, aliás, porque ir procurar o que deu origem ao contra-ataque do adversário dá mais trabalho e não interessa muito. E assim lá vai sobrevivendo Gaitán, entre os pingos da chuva, deixando permanentemente cocó na sanita numa casa onde moram onze pessoas sem nunca ninguém se aperceber que a merda é mesmo dele.
"Mas uma equipa precisa de desequilibradores!" Pois precisa. Mas eu vejo um Pedro, um Cristiano Ronaldo, um David Silva, um Nani, um Rooney, um Ribéry e até um Messi muito mais envolvidos nos processos defensivos das suas equipas do que o Gaitán no Benfica. E aqui nem estou a falar da qualidade individual, todos eles muito melhores do que Gaitán, mas sim da mentalidade. Todos estes jogadores têm mentalidade competitiva altíssima. Uns talvez já tivessem nascido com ela, mas a outros foi-lhes incutida ao longo do tempo. O Gaitán está na segunda época no Benfica e para mim nesse aspecto consegue estar pior do que na época passada. Com mais tiques de vedeta, mais "estou-me a cagar". Mais enervante. E é inadmissível que o treinador continue a compactuar com isto. É uma tortura para mim ver o Gaitán em campo a fazer sempre, sempre, sempre, sempre o mesmo sem que ninguém o chame à atenção ou o castigue com o banco. Não consigo ver mais Gaitán, pronto. Não consigo. Rebentei ontem. Prefiro o Nolito com uma fractura exposta da tíbia dentro do campo ou o Mika adaptado a essa posição.
E é curioso que já tenha visto mais pessoas com camisolas e cartazes do Witsel, do Javi, do Luisão ou do Maxi do que do Gaitán, o suposto mega-craque da Luz. Acredito que o público sabe reconhecer quem sua até à última gota pelo clube, tal como numa empresa as pessoas sabem reconhecer quem está onde está por mérito próprio ou por cunha do chefe.
Por isso gostava imenso de poder entrar numa máquina do tempo e programá-la para daqui a três ou quatro anos só para poder levar Jesus a ver em que clube estaria Gaitán a jogar. A brilhar num colosso tipo Manchester United ou Milan, ou a arrastar-se meio esquecido (mas de bolso recheado) num longínquo campeonato turco ou ucraniano?
Caso se verificasse a primeira hipótese, era sinal de que Gaitán se esforçava e trabalhava a sério dentro do campo. Quereria isso dizer que enquanto tinha estado no Benfica andava a gozar com meio mundo (que é aquilo que eu penso), só se dignando a correr quando tinha a bolinha no pé, porque sabia que tinha sempre o lugar garantido no onze inicial. Se fosse verdadeira a segunda hipótese, então aquilo que ele tinha mostrado no Benfica era, efectivamente, aquilo que ele tinha para oferecer.
Regressando então ao presente, o que fazer com Gaitán? Sentá-lo no banco de castigo, caso ele no futuro andasse a brilhar nos principais palcos europeus (a tal primeira hipótese de que falei atrás). Despachá-lo o mais rapidamente possível, caso ele no futuro andasse a cozer no deserto turco ou a congelar na tundra ucraniana ou russa (a segunda hipótese).
Seja como seja, Gaitán não é jogador à Benfica. Pode ser uma centena de outras coisas quaisquer, todas elas espectaculares e orgásmicas, mas à Benfica não é.