- Boa noite, era um prego.
- E uma cerveja - acrescenta o Ricardo.
- Não há pregos - responde a mulher. - Mas há bifanas.
- Pode ser.
- E a cerveja... - relembra o Ricardo.
- Isto está fraquito, não está? - pergunto. Nas cinco rulotes em meu redor, estou eu e o Ricardo numa, mais duas pessoas noutra e as restantes três não têm ninguém.
- Oh, menino... Está muito mau - queixa-se a mulher. - Se tivessem posto o jogo em Aveiro era bem melhor!
- Pois, estava mais gente...
- Não é só isso. É que o estádio de Aveiro fica isolado e não há cafés perto. Percebe, menino?
A mulher tem razão. O Marcolino de Castro fica numa zona fortemente residencial e o que não falta por ali são cafés. Todos bem compostos de clientela, por sinal. - Pois, não me tinha lembrado disso...
- Então vieram ao jogo?
- Viemos. Mas não vamos ao estádio. Vamos ficar cá fora.
- Hã?! - solta a mulher, incrédula. - Mas são daqui da Feira?
- Não, viemos de Lisboa - responde o Ricardo.
- De Lisboa?! Para ficar à porta?!
- Sim, em protesto contra a roubalheira dos bilhetes - informo.
- Ó menino, isso é que é amor pelo clube! Mas muita maluquice também, desculpe lá que lhe diga.
- Está desculpada.
- Outra cerveja - pede o Ricardo. - A senhora é muito bonita - acrescenta.
- Obrigado, menino.
- A senhora gosta de futebol?
- Então não gosto!
- E é de que clube?
- Do foculporto (atenção que "foculporto" corresponde foneticamente ao que a mulher disse e é precisamente por causa disso que me refiro a esse clube desta forma aqui no blog. Se são os próprios adeptos a falar assim, quem sou eu para os contrariar) - responde, com um sorriso. - E quando era mais nova era dos Super Dragões.
Mau!, penso, enquanto troco um olhar com o Ricardo. - Dos Super Dragões?!
- Sim, mas naqueles tempos não era nada como hoje. Não havia Macaco, não havia tráfico. Havia gente boa e não nos dávamos assim tão mal com as outras claques. Havia rivalidade mas sem o ódio de agora. Lembro-me de um jogo contra o Benfica em que até fizemos uma churrascada onde apareceram benfiquistas. E não acabou tudo à porrada.
- Não acredito...
- Ó menino, estou-lhe a dizer. Estive lá desde o princípio mas passados dois ou três anos começaram a aparecer drogas e armas em força. Aquilo já não era sobre futebol. E afastei-me.
Eu olhava para a mulher e para o Ricardo sem saber bem o que dizer.
- E ainda lhe digo mais - voltou a mulher. - Hoje em dia recuso-me a fazer os jogos do foculporto. Faço muitos jogos aqui na zona norte mas onde eles estiverem eu não vou.
- Então porquê?
- Porquê? Porque são os únicos que me roubam o material e partem a rulote. Da última vez até as lonas de publicidade arrancaram. Partiram-me as mesas e as cadeiras da esplanada. Até estas coisas levaram - e aponta para trás de um vidro onde estavam recipientes metálicos com alface, tomate, cenoura, etc.
- Mas o foculporto tinha perdido esse jogo?
- Qual quê, menino! Tinha ganho. Mas eles são assim, são uns animais. Não têm respeito por ninguém.
- E a senhora não lhes disse que era do foculporto?
- Eles sabiam. Mas não querem saber disso para nada. Querem é roubar e destruir.
- E diga-me uma coisa, nunca lhe aconteceu nada parecido com claques do Benfica ou do zbordin, por exemplo?
- Nunca. Há sempre gente estúpida em todo o lado e há sempre um ou outro malandro que foge sem pagar. Mas nunca chegaram ao ponto de roubar o que estava dentro da rulote e partir tudo.
- A senhora devia era ir para a Luz em dias de jogo. Enchia-se de dinheiro e ninguém lhe fazia mal.
- Isso queria eu, menino. Mas é muito longe e o combustível está tão caro... E depois a que horas chegava a casa? Já viu que tenho aqui a minha filhota a estudar neste cantito ao frio a noite toda? - e aponta para uma miúda.
- A senhora é mesmo bonita - torna o Ricardo.
- Olha que o marido está ali - digo-lhe eu.
A mulher ri-se.
- Bem, temos que ir. Está quase na hora.
- Boa sorte, meninos. Portem-se bem.
- Até à próxima! Veja lá isso de ir trabalhar para perto da Luz.
A mulher sorri. - Não dá, não dá.
Afastamo-nos. - A mulher era mesmo bonita, não era? - pergunta o Ricardo.
- Era, - respondo - por dentro e por fora.
No final do jogo tinha a rulote cheia de gente à volta. Os benfiquistas festejavam a vitória em paz. Só queriam aquecer o estômago e refrescar a garganta. Fiquei contente por ela.